Será a loucura digna de amor?
- Natacha Cabral
- 14 de set. de 2021
- 3 min de leitura

O mundo é um lugar onde a loucura prevalece.
E onde há loucura, há génios. E onde há génios, há experiências.
Hoje venho-vos falar do mais louco dos sentimentos, por ser tão indecifrável, e ainda assim, o mais consumido de todos – o amor.
Enquanto passava na rua, numa tarde ensolarada, reparei naquilo que eu definiria como “um louco” preso no seu mundo.
Encontrei o homem abraçado a uma árvore, enquanto entoava palavras soltas, mas sem ninguém a ouvir.
Não pude conter a minha curiosidade e invadi o seu espaço.
- De que fala para o alto, senhor?
- De tudo e de nada.
- Como assim? Nada pode ser o tudo e o nada ao mesmo tempo.
- Engana-se. Há uma coisa que pode. Sabes de amor?
- Creio saber pouco, apesar de me considerar uma romântica com fé. Mas, o que é para si o amor?
- Como te disse, o amor pode ser tudo e nada. Uma vez que é a única coisa que existe, é o tudo. E como só habita no coração de alguns, deixando muitos alienados, outros despedaçados, e outros congelados, é por isso, o nada.
- Estou a ver. Seria ousadia da minha parte pedir-lhe que aprofundasse esses pensares?
- Receio não poder responder-te como esperarias, porque o amor, em si, é pessoal e transversal. Mas farei o meu melhor para te ajudar na tua pertinente questão.
Deram ao amor um nome errado. Ensinaram-vos a amar de forma condicionada. A maioria das pessoas procura o conforto externo na tentativa de consertar o desconforto interno. Amar, parte de dentro para fora. Assim como a flor, que precisa duma semente que caia em terreno fértil para crescer, também a semente do amor precisa do teu terreno fértil para se desenvolver. Se o terreno for seco, morre. Se o terreno for excessivamente húmido, morre. Se queres ver e perceber sobre o verdadeiro amor, cuida primeiro duma planta. Entende o que ela precisa. Percebe como ela poderá durar. Não te tornes obsessivo, nem lhe vires as costas durante muito tempo. Tudo que se gosta merece a atenção devida. Mas prepara-te para os dias chuvosos. Haverão abanões devido ao vento. Cairão as folhas com o passar dos dias. Mas, se te lembrares que o sol sempre brilha após a tempestade, então encontrarás a sabedoria necessária para entenderes que nada é eterno, tudo é mutável. E assim é o amor, mutável como as estações, duradoiro como a eternidade.
- Haverão formas certas e erradas de amar?
- Como poderias definir errado e certo? É errado eu dizer-te que amo esta árvore, apesar dela não falar diretamente comigo? É certo eu odiar alguém que me magoou porque me decidiu amar partindo de um pressuposto egóico? Amor e não-amor deturpado, não deixam de ser formas de amor. Umas manifestam-se sobre a forma de gestos, melodias, visões, sentires absolutamente magníficos. Outros, porém, manifestam-se de forma distorcida, disruptiva, condenada, isolada, egoísta, separada.
O Homem não se pode separar do amor, assim como não pode viver sem coração, porque é lá que reside a nossa melhor casa. Quem ouve com o coração e age em conformidade, sente bondade e gratidão enquanto caminha nos trilhos da vida. Quem ouve com os sentidos isoladamente, e age de forma desligada de si e dos outros, sente dúvida, pesar. Sente a ameaça constante de um perigo inexistente. Sente o vazio. Luta contra si e contra o mundo, por estar tão desconectado da sua natureza interna. Do seu propósito. Da sua divindade. De tudo aquilo que é e sempre será. Agora diz-me, haverá algo nesta terra que tenha sido feito sem amor?
- Uma bela pergunta à qual eu não sei a resposta.
- Em caso de dúvida, segue o amor. Pois tal como uma ovelha segue o rebanho, também tu deverás seguir os teus sentidos. Em silêncio, consegues escutar todo o teu corpo e o pulsar do teu coração. Não procures as respostas fora quando todas elas estão dentro de ti. Funde-te ao Universo, assim como os flocos se fundem com a restante neve em água. Funde-te em ti mesmo. E talvez aí, tenhas o vislumbre que necessitas para todas as tuas questões, que seguramente, serão tão tuas, como de todos os outros que nesta terra habitam.
Aos que amam.



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