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A arte mais antiga: o poder de bem comunicar.

  • Foto do escritor: Natacha Cabral
    Natacha Cabral
  • 17 de out. de 2023
  • 4 min de leitura

Caro leitor, esta semana gostaria que refletisse comigo numa coisa que, aparentemente simples, tem um poder gigantesco quando não bem aplicada – o poder da comunicação.


Quando falamos sobre o excesso de violência que nos rodeia um pouco por todo mundo, grande parte das pessoas associa esta ideia a uma falta de saúde mental, deixando de lado fatores extremamente impactantes como os valores culturais e sociais nas quais o indivíduo vai absorvendo ao longo de toda a sua vida.


Sim, parece-me óbvio que quando alguém não beneficia de boa saúde mental, tudo fica de certo modo comprometido, incluindo a capacidade de se bem comunicar e de bem ouvir. Mas vamos analisar a coisa por outra perspetiva.

E se eu lhe dissesse que todos temos parte da culpa por usarmos uma linguagem agressiva para lidarmos uns com os outros, e que toda esta ideia de uma sociedade violenta sofre de forças maiores que divergem e convergem de todos os lados?

Vamos lá descortinar esta ideia.


Quando discutimos sobre estes temas mais sensíveis, há uma premissa na qual eu gosto sempre de relembrar: “hurt people will hurt people (pessoas magoadas vão magoar pessoas).” Assim, facilmente se compreenderá que quando alguém comunica connosco de um ponto de vista de dor, a dor acabará por passar até nós, direta ou indiretamente, como se de um espelho se tratasse.


Experimente parar por uns segundos e reflita na última vez que alguém falou consigo de uma forma ríspida ou violenta. Agora, tente imaginar as razões pelas quais ela se dirigiu a si desse modo. Seguramente que se a conhecer pessoalmente, poderá ser mais fácil entender algumas das possíveis causas como stress, alguma fase mais dura que possa estar a vivenciar, algum trauma infantil, inseguranças e outras tantas que poderia aqui enumerar.

Uma vez consciente disso, tente agora lembrar-se de como reagiu nessa situação: levantou a voz? Engajou ao mesmo nível? Disse coisas que não deveria ter dito e agora se arrependeu? Ficou calado? Ignorou por completo?


A razão pela qual eu gostava que o leitor identificasse a sua reação é pelo simples facto de termos, com urgência, de trazer a nossa responsabilidade ao de cima aquando enfrentamos situações como estas, que é o mesmo que dizer que, a nossa reação a um episódio destes, poderá muito bem ditar a nossa parte de “violência” na sociedade.


Agora vamos parar para analisar aquilo que certos autores definem de comunicação não violenta, e de que modo esta prática nos poderá auxiliar a reverter estas situações

O grande objetivo ou segredo por detrás desta comunicação é, acima de tudo, desenvolver a nossa capacidade de gerar empatia e conexão com o outro, do mesmo modo que entrar em contacto com os nossos sentimentos e necessidades, o que, por arrasto, ajuda a criar uma vida mais rica e com mais significado.


Vamos então esclarecer, em primeiro, o que não é comunicação não violenta: quando estamos constantemente a observar o outro e a usar comentários julgativos como ponto de partida; quando fazemos uso de julgamentos entre o que é certo e o que é errado, o que é normal e anormal, etc; quando reagimos no imediato, ao invés de ouvir atentamente; quando negamos a nossa parte de responsabilidade na conversa e ações diárias; quando usamos os nossos sentimentos como forma de espelho no outro, ao fazermos aquilo que se chama de blame-shifting; quando usamos o castigo ou a agressividade como forma de marcarmos o nosso ponto de vista sobre algo; quando manipulamos a conversa de modo a obtermos aquilo que desejamos do outro; e finalmente, quando não somos honestos naquilo que pretendemos dizer ou naquilo que estamos realmente, a sentir.


Agora que o leitor tem uma ideia geral de como não comunicar com alguém, facilmente se entenderá que a comunicação não violenta é, na sua base mais primordial, saber ouvir, mas não somente com os ouvidos, mas através dos sentimentos e de todos os outros sentidos.


Se voltarmos um pouco atrás ao início do nosso texto, referi que os valores sócio-culturais desempenham um papel crucial no desenvolvimento pessoal, assim que, há pessoas que são mais afetas a ceder às pressões do quotidiano, às exigências espaço-culturais e às demandas dos pares e família, o que naturalmente, quando posto tudo na panela, faz com que muita boa gente expluda e perca as guias de conduta, se desconecte de si mesmo e do mundo ao seu redor, e que vá acumulando atitudes e decisões menos favoráveis ao bem-estar individual e coletivo.


Tudo isto para lhe dizer que, comunicar e ouvir de forma saudável requer, primeiro, que sejamos capazes de nos tratar com amor e respeito e que sejamos verdadeiros com os nossos sentimentos e necessidades diárias, pois só assim se poderá ver o outro. Só assim, conseguiremos almejar conexões mais profundas, e não apenas conexões fúteis e superficiais como aquelas que se vivem, em grande ênfase, na sociedade em geral. Só assim, conseguiremos fazer com que as pessoas levantem as cabeças dos ecrãs e olhem frente destemidamente e compassivamente.


Em suma, esta arte de comunicar não violentamente, é uma arte conectada ao amor interior e ao amor incondicional, algo que tem de partir, primeiramente, dentro de nós, que no fundo, é o ponto de partida para tudo.


Deixo aqui um pensar final na qual acredito ser um sumário daquilo que abordei na temática de hoje:

“Por trás de alguém que se parece a um monstro, está alguém com sentimentos e necessidades reprimidas. Por detrás dessa máscara assustadora, poderá estar alguém desesperado por receber e dar amor. E quando essa máscara finalmente cai, a visão é igual à minha.”


Um bem hajam e, boas conversas!

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