Os verdadeiros são, quase sempre, mal compreendidos.
- Natacha Cabral
- 20 de nov. de 2022
- 4 min de leitura

Já alguma vez sentiram que ser verdadeiro vem com um preço muito elevado?
Não sei quanto a vocês, mas sei quanto a mim, e honestamente, sim. Sinto vezes demais.
Confesso que este sentimento me deixa um misto de sensações desagradáveis e ao mesmo tempo, de autenticidade. É como que se por um lado, me custa entender o porquê das pessoas gostarem tanto da superficialidade, e por outro lado, sinto algum alívio por saber que são elas que andam enganadas, e não nós.
São essas mesmas pessoas que nos costumam categorizar como arrogantes, insensíveis, brutos, inconvenientes. São essas mesmas pessoas que acham que nós não temos problemas, que não sofremos porque somos “duros como o aço”, que não nos preocupamos porque temos mais em que pensar e fazer, que temos uma poker face e que andamos por aí a semear a destruição, quando aquilo que elas não sabem é que as nossas ações são honestas e aquilo que mais queremos é ser uma mão que ajuda, uma luz que ilumina, uma casa que recebe sem cobrança, um maestro que toca uma sinfonia de fé, coragem e possibilidade.
Bom, mas vamo-nos focar no assunto da amizade.
Sejamos, desde já então, realistas: manter relacionamentos, sejam eles de amizades ou íntimos, é tarefa trabalhosa, e quanto mais aprofundamos qualquer um deles, mais percebemos que o trabalho redobra. Já nem vou dizer nada sobre fazer novas amizades nos tempos que decorrem porque esse, é sem dúvida outro tema, ainda que possa aqui ser mencionado subtilmente.
Se és daqueles que vês o mundo duma forma mais abrangente, mais impactante, mais conectada, mais sensível, então seguramente que tens as tuas capacidades emocionais um pouco mais desenvolvidas que os demais, e por conseguinte, terás a verdade no teu portfólio de valores a ter em conta.
E assim andas, e assim vives, e assim prossegues. Umas vezes tranquilo e satisfeito porque sabes que a verdade sempre prevalece, outras vezes frustrado e com vontade de ceder à tentação do facilitismo por sentires esta tua faceta como uma espécie de praga ou dom indesejado.
Não entendes porquê alguém gostaria de ser idolatrado com um motivo escondido, porquê alguém gostaria de mostrar ao mundo aquilo que não é, porquê alguém conservaria amizades suspeitas, namoros fictícios, casamentos utópicos, empregos aborrecidos, ou seja, porquê alguém viveria uma vida disfarçada do que quer que seja.
Todavia, e do mesmo modo, estas pessoas não entendem o porquê da tua honestidade, da tua profundeza, da tua sincera preocupação, do teu sorriso transparente, da tua sensibilidade fora do vulgar, e do teu coração pronto. Nada disto lhes faz sentido, e então prosseguem a sua viagem nas suas carruagens com um assento predefinido, barafustando qualquer troca urgente a ser feita, qualquer ajuste não planeado. Não que elas sejam mais ou menos que nós, porque neste mundo ninguém é mais que ninguém, apenas só não estão prontas, ora por não terem sido assim ensinadas, ora por optarem por short cuts na tentativa de obter algo, iludidas pelo diabo que as tenta com propostas irrecusáveis, diariamente e, persistentemente.
Há outra saída, é verdade, mas é preciso que a consigam ver, daí eu dizer que é preciso estarem prontas. Que sejam capazes de retirar os óculos cor-de-rosa da cara e que enxerguem a longo prazo, uma vez que o diabo apenas nos possibilita visões a curto prazo, de viver tudo duma vez, de querer as coisas para ontem, de atropelar etapas e pessoas pelo caminho.
Tem cuidado! Porque o diabo é real, e ele vive bem dentro de cada uma das nossas mentes, prontinhas a ser ludibriadas a troco de reconhecimento e autosatisfação rápida.
No que às amizades diz respeito, creio veemente em duas premissas: a primeira, é o facto de ser deveras desafiador manter boas amizades por perto porque, como referi anteriormente, qualquer relação de duas vias requer cuidado; e segundo, qualquer nova amizade nos tempos modernos requer, extra cuidado, extra esforço e extra paciência e como este sentimento de dúvida e superficialidade que permanece no ar só tende a crescer, devido aos estilos de vida hoje praticados (e refiro-me aqui à extrema importância dada às redes sociais), não creio que isto tenda a melhorar.
Porém, por muito que o tempo passe, que muitas inovações continuem a cair nos nossos colos a um ritmo frenético, que intermináveis tentações cheguem por todos os canais, há coisas que prevalecem imutáveis. Há valores que valem mais que qualquer novidade cara, que qualquer feito admirável – valores como a compaixão, a lealdade, a verdade e amor sincero.
Não sei o que podem os amigos dos amigos superficiais esperar, mas sei o que podem os amigos dos amigos verdadeiros esperar.
Sei que um amigo verdadeiro não te vai convidar para sair e passar grande parte do tempo a olhar para o telemóvel, que não te vai mentir descaradamente e propositadamente, que não se vai lembrar de ti só quando convém. Estes amigos vão dedicar do seu precioso tempo para te ouvir atentamente, vão perder desse tempo para pensar numa solução para o teu problema, vão sentir a tua dor, vão erguer uma mão ou um braço para te puxar dum buraco, vão dar o último euro da carteira mesmo não tendo muito mais, vão te aconselhar naquilo que sabem e silenciar quando desconhecem, vão partilhar da tua alegria genuinamente cada vez que sucedes, vão dizer-te que foste parvo ou inapropriado em determinada situação, sem medo e sem intenções derrotistas, vão continuar a gostar de ti não importa quanto tempo passe ou quão longe possas estar, porque aquilo que é sincero deixa um traço de eternidade no ar.
Assim, meus caros, cruelmente e friamente dito, não deixem que os fotoshops e os likes vos influenciem na hora H, na hora de teres de tomar a decisão entre quem seguires e quem deixares para trás, pois na hora do teu aperto, na hora em que rastejas na lama e com um tostão no bolso, verás seguramente o quão enganado andaste, porque um te dirá “Lamento”, e outro te dirá “O que posso fazer por ti?”
Esta é a grande diferença.
E para terminar este pensar, gostava de pedir ao mundo para dar uma oportunidade aos verdadeiros. Para pararem de os julgar e de os temer, pois não é da verdade que o mundo deveria ter medo, mas da falsidade bem intencionada.
Até mais!



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