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Os meninos adultos e a bruxa má

  • Foto do escritor: Natacha Cabral
    Natacha Cabral
  • 13 de mai. de 2021
  • 3 min de leitura

Todos nós, em algum ponto da nossa vida, já para não dizer quase sempre, caminhamos às escuras. É como que se estivéssemos a conduzir na autoestrada na noite serrada, e a única luz que dispomos é aquela emanada pelos faróis do nosso carro. Não conseguimos ver muito longe, mas vemos o suficiente para seguir caminho, ora mais devagar, ora mais depressa.

O que é engraçado é que este sentimento de “confiar no que aí vem”, apesar de não nos ser ensinado, é quase como um super poder que nos é conferido assim que nascemos. O bebé confia que quando chora, a mãe o vai salvar. A criança confia que quando comete um erro, os pais perdoarão. O jovem confia que as suas ideias serão aceites pelos pares, ainda que meio inseguro de si mesmo. O adulto confia nas suas convicções e valores, ainda que muitos obstáculos e pedras no percurso lhe queiram provar que não.

Se analisarmos isto bem, afinal somos todos super-heróis! A grande diferença está que uns se tornam conscientes deste poder e outros, calam os sentidos, caminhando pela vida cegos, surdos e insensíveis a tudo.

Sempre achei que a sociedade não precisa de mais super-heróis se não nós mesmos. E este poder que aqui me refiro não é nada mais nada menos, que a nossa intuição. A nossa voz interna. O nossa guia. O nosso sexto sentido. Podem apelidá-lo do que vocês quiserem, logo que o reconheçam.

Eu sou daquelas personas esquisitas que creem no invisível. Há uma força que nos move em determinadas direções e muito, mas muito raramente, essa força falha. Para esta força intuitiva e omnipresente não há cá acasos. E aos mais dados a este assunto saberão com certeza, do que estou a falar.

Ir ou faltar, embarcar ou ficar por terra, encontrar ou perder, virar à esquerda ou seguir em frente, dizer ou calar… nunca te aconteceu de ficares na dúvida e como que de repente, algo te impediu ou te empurrou a ir? É. É isso mesmo. Agora percebes a magia do oculto presente na vida de todos nós, ainda que ao de leve. Há certas coisas que não necessitam de explicações, pese embora nós tenhamos a mania de dar nomes a tudo…

Paradoxalmente, muitos nos tentam silenciar este instinto animalesco, como se fosse algo mau. Cingem-nos a reagir por imitação e por memorização, como se a nova vida criada fosse igual à vida outrora perdida. Mas, o que tem de assim tão mau ouvir a voz que sabe? Tenho pena que nas escolas não se ensinem as crianças e os jovens a apurar este olfato. Talvez se magoassem menos. Talvez acertassem mais. Talvez treinassem o músculo da generosidade e da compaixão ao próximo. Talvez o tanque do instinto de sobrevivência na selva do dia-a-dia atingisse o full, e a guiasse numa jornada menos perigosa por entre as ciladas e os desfiladeiros.

Continuo a crer que poderíamos aprender muito com os animais. De um modo muito simples e primitivo, lá perduram no tempo, enquanto convivem e interagem num meio tão vasto e exigente, o que demonstra, sincronicamente, alguma complexidade comportamental.

É perfeitamente compreensível que aos olhos de muitos de nós este assunto não tenha assunto nenhum de ser. Afinal, quem é que gosta de deixar a vida nas mãos de uma velha armada em mágica com a mania que ouve ou pressente coisas? É tão mais fácil seguir os nossos olhos e os factos palpáveis. Mas nunca te disseram que as aparências iludem? Poderá afinal a velha sabedoria ter razão?

Creio que vale a pena pensar nisso. Talvez estejas preso numa fábula, assim como a Gata Borralheira, mas não estejas a ver nas entrelinhas…

 
 
 

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