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Os fantasmas que se sentam à sombra da tua bananeira

  • Foto do escritor: Natacha Cabral
    Natacha Cabral
  • 21 de fev. de 2022
  • 5 min de leitura

O ser humano é uma criatura complexa. Tão complexa quanto a variedade de lugares e experiências que são possíveis nas diversas partes deste mundo e nas imensas vidas que nelas caminham.

O lugar onde crescemos será sempre um lugar a recordar, assim como as pessoas que nos acompanharam nesse processo, desde familiares, amigos, conhecidos e outros tantos.

Não temos como fugir ao que fomos e de onde viemos. Há coisas que tiveram lugar no passado que dificilmente poderão ser alteradas, e uma delas é a nossa perceção da própria realidade e os traços de personalidade que fazem nós únicos e diferentes de qualquer outro.

A parte boa é que, se esse processo de crescimento se desenrola sobre um “teto” benéfico, muito provavelmente somos em nós um indivíduo íntegro, seguro, bondoso e equilibrado. A parte má, é quando esse crescimento acontece num lugar onde o teto é instável, fazendo com que essa instabilidade crie raízes profundas no nosso código genético.

É certo que em todos os lugares e lares, e que em algum momento do nosso crescimento enquanto indivíduos autónomos, sensíveis e pensantes, os problemas e os obstáculos vão surgir no caminho. Porém, está no entendimento desses problemas e na forma como os resolvemos que reside o segredo. Enquanto aquele que cresceu no teto estável aprendeu a lidar com os problemas de uma forma respeitosa, e como um oportunidade para crescer, aquele que cresceu num teto instável muito provavelmente vai fazer o que grande parte de nós faz – varrer para debaixo do tapete a toda a velocidade! É sempre uma solução com uma vitória a curto prazo. Mas convém não esquecer que o lixo continua lá, e irá permanecer até ao dia que alguém o decida limpar.

De há uns bons anos para cá, aprendemos a crescer numa sociedade que evita muita coisa, que nos quer convencer que devemos lutar pela perfeição, por um determinado estatuto, e por reprimir as nossas emoções. Mas há um grande perigo nesta a tentativa: ignorar aquilo que faz parte de nós é como tentar conter um fogo mandando mais lenha para a fogueira.

Muitas das exigências que as famílias, os lugares e o próprio dia-a-dia requerem de nós, acabam por contribuir para a criação de um constante estado de insegurança, medo, o arrependimento e culpa. Que não é nada mais, nada menos que os fantasmas que nos acompanham para todo lado.

Aquele pensamento que ficou por exprimir, aquela conversa que ficou por ter, aquela oportunidade que não quis agarrar, os “ e se” eternos que divagam na nossa mente, tudo, consequências de uns fantasminhas que gostam de assombrar a nossa alma, privando-nos da claridade do vislumbre, da oportunidade e da luz própria vida.

Com o passar dos anos, e à medida que vamos emergindo na idade adulta, estas ações e estas crenças inibitórias fazem com que carreguemos na nossa aura camadas de energia negativa e bastante pesada para onde quer que nos dirijamos.

Porque que raio as minhas relações nunca funcionam? Porque não encontro um trabalho que seja mesmo feliz? Porque atraio tantas pessoas complicadas para mim?Porque não me sinto satisfeito ainda que ganhe um bom dinheiro? É simples. Porque carregas os fantasmas contigo, como um cão com uma trela que decides levar a passear, do mesmo modo que não compreendes que a vida não gira à volta de pensamentos e fortunas.

Não compreender e não aceitar a possibilidade desses fantasmas em nós, é o mesmo que afirmar que, mesmo que a minha vida esteja o total caos, eu proclamo aos 7 ventos que está tudo uma maravilha, que é aquilo a que assistimos nos meios sociais 24 sobre 24.

Enquanto não decidires limpar o lixo que transportas contigo, crias à tua volta um loop energético menos bom que gira eternamente. Saber quando parar, que é o mesmo que dizer, “limpar a casa interior”, é reconhecer que ninguém é perfeito e que mudanças são necessárias a todo o momento. E o que se chama a isto se não o verdadeiro crescimento pessoal?

Curiosamente, neste filme onde o desenvolvimento pessoal acontece, encontrámos dois tipos de pessoas ou atores: o consciente e humilde o suficiente para aprender com os erros e melhorar dia-após-dia, um pouco de si mesmos; e os arrogantes, que já não têm nada para aprender porque já sabem tudo, sendo que o erro está nos outros, logo optam por ficar no seu cantinho, refugiados, assustados, ou de peito feito com a espada armada.

Sejas tu quem fores, e venhas de onde vieres, compreende apenas que a vida te fornece o palco ideal para encenares o teu próprio processo de aprendizagem.

Nem sempre vai ser fácil. Mas quem disse que viver é fácil? Se assim fosse não tinha piada, nem havia lugar à evolução uma vez que já somos perfeitos.

Tudo isto para te dizer que a grande lição que retirámos do nosso passado, do nosso presente e possivelmente, para o nosso futuro, é a necessidade de aprendermos a ser verdadeiros connosco e com os outros. Se sentes que tens de fazer, faz, ainda que não seja perfeito. Se sentes que tens de dizer, diz, ainda que não debites uma serenata nem sejas um Buda com as palavras. Aquilo que vem do coração é sempre puro e genuíno. Já aquilo que vem do ego, dum guerreiro magoado com uma atitude medrosa, agressiva ou defensiva é sempre falso, corrompido e vazio. São ações que contrastam com os gestos de bondade e de amor, e que por norma causam danos severos em ti, e nos outros. E tanto valem para a ação como para a inação.

Daí que o melhor conselho que te posso dar, e que talvez esteja em falta em todos os lugares do nosso mundo, é que vivas a vida através dos olhos do amor, do coração e da verdade.

Sim, o intelecto é importante. Sim, o dinheiro é importante. Sim, o fogo que te move também. Mas o que é o mundo sem o amor e o cuidado? Nada! É um lugar morto. As fontes secavam, os oceanos desapareciam, as florestas murchavam, os animais se extinguiam e os humanos pereciam. Não há força, nem palavras, nem tão pouco dinheiro que compre a vida. E o que se encontra é muita gente a viver com as prioridades invertidas, daí tanto caos, corrupção, guerras e destruição.


Estamos todos conectados por esta “energia mãe”, a energia que dá a vida, que provém do amor, que é inocente, boa, criativa, benevolente, caridosa e simples. Assim que digo que o dia em que entendermos que somos mais água que fogo, intelecto ou ouro, é o dia que entendemos que as emoções desempenham um lugar destacado na nossa vida.

Passamos os anos a aprender a ser duros, e depois passamos os restantes anos a tentar concertar os pedaços fora do lugar. Estranho, não é?

Talvez varrer os problemas para debaixo do tapete não seja a solução mais sensata ou a forma mais mais respeitosa de lidarmos connosco.

Aprende a ser vulnerável. Encara os teus fantasmas de frente. Levanta o tapete e trata de colocar o lixo no seu devido lugar. Ouve a tua verdade, fala a tua verdade e vive a tua verdade. Pois amanhã poderá ser tarde demais!

Amanhã poderás não ter mais direito a uma segunda chance. Amanhã poderás não ter mais voz para cantares a tua canção. Amanhã os fantasmas já se reproduziram o suficiente para te gelar a alma e o coração, assim como para te paralisarem o corpo.

Amanhã, poderás ter perdido a tua melhor oportunidade de seres finalmente livre, e de correres os fantasmas que te provocam tanta sombra.

Daí que a decisão final é sempre tua: quanto mais tempo queres carregar os fantasmas atrás de ti?

2 comentários


Eliane Souza Cardoso
Eliane Souza Cardoso
22 de fev. de 2022

Parabéns por este texto incrível.

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KELLI CRISTINA GIATTI
KELLI CRISTINA GIATTI
22 de fev. de 2022

E o que realmente importa, é só o amor... Sem ELE de nada vale!

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