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Mulher, não andarás com a alma faminta de vida?

  • Foto do escritor: Natacha Cabral
    Natacha Cabral
  • 16 de jun. de 2022
  • 5 min de leitura

Era uma vez uma menina que vivia na natureza com a sua tribo. Ela vivia uma vida muito simples, mundana, porém, recheada de riqueza. O seu maior joio era correr entre os bosques enquanto dançava e cantava alto e bom som.

Certo dia, e com algum esforço, finalmente conseguiu trapos suficientes para criar os seus primeiros sapatos cor rosa. Estes sapatos eram-lhe tão preciosos que os levava até para a cama.

Quis o destino que, num dia mais cinzento e enquanto fazia as suas caminhadas, uma carruagem dourada cintilante parasse junto a si. Quando encantada pelo imenso brilho, uma fada vestida de diamantes azuis convidou-a para ir consigo, no qual a menina não conseguiu recusar. Mal ela sabia que iria acabar presa num castelo onde teve de aprender a ser boazinha e a seguir os costumes praticados pelo povo, tendo como maior punição de se livrar dos seus sapatos preferidos. Nesse dia, e todos os restantes até à sua idade adulta, o seu brilho interior desapareceu - não mais cantou, não mais dançou. Até ao dia em que não mais quis viver.


Esta fábula, de cariz figurativo e dramático, espelha muito aquilo que acontece com imensas mulheres.

A sociedade desenvolvida oferece à mulher demasiadas tentações, sendo bastante fácil cair numa armadilha disfarçada de boas intenções.

Por outro lado, a mesma exige da mulher uma lista interminável de deveres e suposições. Afinal, é expectável que a mulher se comporte de determinada maneira, e quando isso não acontece, haverão sempre aquelas que acabam por sucumbir às pressões externas ainda de que uma forma inconsciente.

Contudo, dentro de toda a mulher existe um espírito selvagem. Uns chamam-lhe fogo interior. Outros, instinto. Outros, apelidam de um sexto sentido feminino. Seja qual o nome que for, o que é certo é que nos foi concebido de forma gratuita e muitas poucas fazem bom uso desta poderosa ferramenta. Isto é o mesmo que dizer que todas nós possuímos uma força que nos caracteriza, que nos move. Temos desejos e sonhos, mas também temos uma força fora do normal. Sabemos ao mesmo tempo ser lobas solitárias, assim como integrar a matilha quando necessário.

Todavia, nos tempos modernos em que nos encontrarmos, há uma espécie de convite sorrateiro para ignorarmos ou até extinguirmos este nosso lado mais selvagem. É tão mais fácil e até de certo modo, desejável, sermos surdas e mudas, bondosas e cegas, obedientes e submissas. Assim, e contra a nossa própria natureza, caímos muito facilmente na rede impercetível que nos torna imóveis e que nos faz esquecer quem somos e o que nos faz sorrir por dentro.

Esta, é a mesma rede que nos retira estes mesmos poderes, poderes esses que algumas mulheres só voltam a sentir quando são mães pela primeira vez, após estarem adormecidos por tanto tempo. E eis o verdadeiro perigo: quando uma mulher decide deixar de apoiar, intencionalmente ou não, outra mulher e o espírito energético coletivo, é quase que uma sentença própria, ao recusar lutar por si mesma e pelo futuro de todas nós, uma vez que a energia estagna ao invés de se mover numa direção positiva.

É por isso urgente que a mulher consiga resistir a estas tendências e às armadilhas do dia-a-dia, bem como ao silêncio que carrega por dentro. A longo prazo, não são a rotina e o sufoco que acabam com o nosso fogo, mas sim a falta de alegria, direção e paixão pela vida. E por experiência vos digo que não é nada fácil puxar para o lado de cá quem tanto tempo viveu no lado de lá. Quando só se conhece uma realidade é muito fácil ficar convencido que essa é suficiente, estando-se a um pequeníssimo passo de uma total codependência de algo ou de alguém.

Infelizmente, há mulheres que ficam tempo demais. Tempo demais num sítio, numa relação, numa rotina, no vazio. Tempo suficiente para perderem a pele da própria alma. Drenam a sua própria energia, extinguem a sua própria chama, atropelam a sua própria vida. Perder a pele da alma é o mesmo que dizer que perdeu o seu sentido de viver. A pele começa a tornar-se seca, áspera, sem vitalidade. O humor detora-se. Torna - se irritadiça e sem graça. O olhar fica profundo em direção ao vazio. Vezes sem conta dá por si a mirar pela janela a vida lá fora com a sensação de "e se eu...?". Contudo as amarras são demasiadas e acabar por ser "e se eu nada", porque "eu já não tenho mais direito." Diz-se que só quem bate bem no fundo conseguirá regressar à tona com a ânsia de respirar, daí que se ouça que haja uma necessidade de passarmos pela chamada "dark night of the soul" com o intuito de primeiro, abrandarmos, segundo, escutarmos e finalmente, reagirmos. Curioso dizerem que é de noite e não de dia, uma vez que é na escuridão que tememos as nossas próprias sombras. Com jeitinho e com a devida atenção, até os pesadelos e os sonhos nos revelam os mais bizarros segredos e desejos.

A mulher selvagem pode seguramente perder o seu caminho de casa por uns tempos, mas quando se decide conectar novamente aos seus ancestrais, encontra em si um chamamento para renascer das cinzas em direção a um lugar ao sol. E o que é esse lugar? Depende.

O que queres mulher? Queres mudar de cidade, de carreira, de relacionamento? Queres cortar o cabelo e vestir roupas novas? Queres caminhar à chuva ou fazer um retiro para sempre nas montanhas? Queres cultivar o teu jardim ou virar mãe a tempo inteiro? Queres regressar ao sonho que puseste em standby? Queres dedicar o teu tempo a um caminho espiritual? Não sei. Só tu saberás, até porque existem 1001 caminhos para ti, e nem todas temos de seguir o mesmo. E quando o alarme soa, é tempo de ir, seja como for e com o que for. Aquilo que seguramente sei, é que tens sempre ao teu dispor o poder de decidir ser diferente de hoje em diante. Essas amarras não são reais. São apenas imposições que criaste sobre ti mesma. Assim que te convido a pegares numa tesoura e podares aquilo que precisa ser podado. Sem "uis" nem "ais" nem "mas".


A verdade é que a mulher selvagem é tudo menos isto. Ela é vida, é ânimo, é ousadia, é luta, é coragem e amor-próprio. É a soma da sensibilidade e o instinto para perceber o que lhe serve ou não.

E sim, precisamos muito de mais mulheres assim. Mulheres sem medo da condenação barata e capazes de se libertarem com muita pressa desta energia anciã que nos mantém submissas e vítimas ao longo dos tempos.

Ai mulher! Precisas de ti hoje mais que nunca, e sabe que o universo adora um espírito tenaz.


Agora, peço cuidado, pois apesar desta mensagem ser claramente destinada ao sexo feminino, não queiram os homens entender nas entrelinhas alguma espécie de revolta. Muito pelo contrário. Se os meus leitores se reverem em algum contexto neste escrito, queiram por favor fazer uso destas palavras na mesma medida. Só acho é que andam aí muitas mulheres adormecidas.

O pensar já vai longo, mas gostaria de terminar esta reflexão com uma máxima do poeta Charles Simic, deveras ajustado a todos nós: “aquele que não sabe uivar não encontrará a sua matilha.”


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