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Enquanto danço...

  • Foto do escritor: Natacha Cabral
    Natacha Cabral
  • 6 de mar. de 2021
  • 3 min de leitura

Na génese da loucura está o não ter medo e dançar despido. E qual é o mal de estarmos nus de vez em quando enquanto caminhámos por terrenos incertos sem destino ou direção final óbvia?

Queremos sempre um contrato fácil e claro no percurso das nossas vidas, com as vírgulas colocadas com precisão e os pontos nos “is”. Seguimos como robôs sem ritmo nem estilo próprio, sem teatro ou alegria, sem emoções e sem arriscar, estando convictos das represálias e dos raspanetes cada vez que pisámos a tecla errada do piano da vida na nossa tão controlada melodia.

Às vezes gostava de ser como as prostitutas e despir-me sem preconceitos, sem receios e julgamentos disto e daquilo, e apenas apreciar a luz da lua na noite tardia a sorrir para nós enquanto estou na varanda de pijama. A lua apenas reluz! Apenas está, numa imensidade omnipresente de significados vários.

Chega de sofrermos com as mãos atadas. Temos de nos libertar dos laços dos nossos quadros e apelar mais ao surrealismo enquanto apreciámos a arte indefinida com certezas de coisa nenhuma. Mas vermos, com olhos de ver sem pensar em demasia nas cores que realmente lá estão. Ver, mas também ousar. Mas ousar sem receios de salpicar a tela, e aproveitar a música de fundo que nos vem à mente e nos contagia até de madrugada, pedindo um pézinho de confiança e criatividade isenta de pódios e diplomas de doutoramentos.

Porque é que não gritámos mais vezes? Ou sonhámos em voz alta? A falta de sonhos condena o futuro. Já nos assiste um futuro materialista, repetitivo, mecânico e vazio de esperanças. Não seria muito mais giro continuar a desenhar a rosa e azul, e a todos os outros tons que dançam de felicidade ainda que escondidos com a vergonha?

Ai se faz falta dançarmos às escuras e sem medo de tropeções…!

Vou-me largar de leggins e dos sutiãs apertados e dos saltos altos que não me deixam mexer, que me sufocam e me cortam a corrente do sonho. Porque nos esquecemos que a verdadeira altura não está na sola dos sapatos mas na dimensão do sonho e na capacidade de pedir ao vizinho que sonhe comigo! Até mesmo as vacas do jardim, que existem mas ninguém as vê. Filha da meretriz desse manto de invisibilidade que muitos dos seres vestem e não conseguimos ver nem discernir para além do palpável…

Merda para a industrialização e para os fast-food sem esforços. Para tudo que é fácil e que não conhece o sabor da chuva gelada e do temporal que arranca cabelos!

Que se dane o complexo e os que dizem que quanto mais complexo mais completo e mais belo! Viva a simplicidade de um “bom dia”, de um sorriso e de um abraço sem grandes motivos. De um gesto louco de dizer “amo-te” sem nunca ter ouvido a tua voz e querer partilhar a tua boca e os paladares que te criam.

Fico revoltada, fula, embasbacada com a grandeza do mundo e a pequenez da nossa coragem ou gratidão! Chamem-me nomes…maluca, intemporal ou aluada. Vale tudo! Mas valia muito mais se juntássemos a voz e criássemos uma obra em uníssono isenta de público, recordes ou marcas registadas. Apenas porque apetece e porque somos e podemos. E pouco me importa se és das engenharias, das belas-artes e de merda nenhuma, porque com ou sem, continuas a Ser!

Faz tanta falta dançarmos despidos e às escuras…

 
 
 

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