Em que cidade habitas?
- Natacha Cabral
- 4 de mai. de 2021
- 3 min de leitura

Se tivesses de me explicar onde moras, achas que conseguirias?
Não me refiro ao teu corpo físico. Isso é demasiado óbvio. É só cruzar a latitude X com a longitude Y dos graus devidos. A resposta a essa pergunta é por demais evidente. Eu refiro-me onde habita a tua alma. Aquela que tu deixaste perdida algures nas ruas da tua cidade.
Se fores como qualquer comum mortal, deves ter-te dado de frente com uma série de vendavais, encontros indesejados, caminhos sem saída, mudanças de casa e ainda, subsistido ao apressar das estações do ano. Se tudo fossem Primaveras era fácil, mas não há Verão sem Inverno, e portanto a passagem pelo Outono da vida torna-se fundamental e inevitável para todos nós.
É curioso que nem todos gostemos das mesmas empreitadas. Uns preferem refugiar-se no frenesim urbano, outros no silêncio das montanhas e outros, em condomínios privados. Seja como for, e na casa que for, quanto mais te escondes, mais terás a descobrir. Quanto mais longe, mais quilómetros terás de percorrer. E quanto mais remendas, mais gastos terás de realizar para vires a perceber que é tão pior a emenda que o soneto.
Todos nós idealizamos viver no paraíso. E isso não precisa de ser igual para todos. E de facto, uns preferem os ares rurais, enquanto outros os ares de maresia. E para uns uma cabana basta. De qualquer modo, o encontrar do nosso paraíso não mora nos aspetos exteriores, mas na paz interior. E por isso te pergunto, onde moras? Estás num lugar ao sol ou à sombra? Estás no topo da montanha ou tens a vista impedida pelo nevoeiro? Ouves o cantar dos pássaros e as ondas ao longe, ou um ruído infernal? Vives num T2 ou numa mansão assustadora?
No final das contas, pouco me diz se tens uma casa ampla ou multifuncional. Diz-me muito mais se a tua estadia é num lugar iluminado e tranquilo, e se a tua companhia é apelativa e transparente. Se assim não for, levas-me a crer que terás na tua casa cantos escondidos, trancados a sete chaves e estritamente interditos. Uma espécie de contrato assinado e selado com o deuses, onde só tu e as paredes sabem, só a elas te confessas.
Mas o que te aconteceu de tão grave nessa cidade que não possa vir a público? Porque foges a sete pés com as malas atrás das costas?
Podes até ter sofrido muitos golpes, teres vistos muitas casas a ruir, teres perdido o norte na imensidade das ruas, teres ficado sem luz na escuridão da noite, teres sangrado das mãos numa parede áspera, teres ficado de fora do último comboio, teres ficado surdo em discussões inúteis, teres calado a voz na canção do povo. Podes até ter assistido a todas essas peças de teatro, experienciado todas essas panóplias de emoções provocadas pelos inúmeros estilos citadinos, mas há um habitat que jamais se destrói: a tua alma.
Podem ter-te roubado, esquartejado e até humilhado...mas o teu maior diamante eles não cheiram. A esse, poucos chegam, e esse é o espaço que merece ser limpo e polido todos os santos dias, independentemente do império que desejas ter ou no sítio onde queiras viver.
Nesse espaço podes apostar. Podes investir sem receios porque nele não tens o risco de fishing ou de bankrupcy. E se é de riqueza que andas à procura, este é o tesouro cobiçado da terra prometida.
Mas tem cuidado! Às vezes o pagamento poderá ser o teu próprio sangue. Poderás ter de investir até ao ponto de te sentires anémico, mas se quiseres chegar à cave das respostas tens de abrir as portas certas. Mas isso requer fazeres as devidas perguntas.
Nada nesta vida é de graça, mas conhecer a tua verdade compensa o esforço. Não quererás mais recuar. Não serás mais ingénuo. Não terás mais medo. Não haverão mais dúvidas. Não aprisionarás mais monstros. Não viverás mais na sombra. Só assim serás a tua própria luz no teu próprio reino. Só assim poderás iluminar os outros. Só assim serás deveras livre, numa cidade de escolhas infinitas.



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