Claro como água
- Natacha Cabral
- 23 de mar. de 2022
- 4 min de leitura

“Na natureza nada se perde. Tudo se transforma.” Esta célebre frase, proferida por Lavoisier, continua a ser um dos meus lemas preferidos para encarar o espírito infinito e místico da própria vida. Sim, a vida não contém definição certa, mas estamos todos de acordo quando afirmo que é um processo desafiante e um tanto ou quanto ousado, querer decifrá-la. Já diziam os entendidos que nada do que é bom chega de forma fácil, daí que viver é tudo, menos fácil. Quando digo fácil, não que estar vivo seja difícil, mas que ela requer de nós grande estofo, não só para a preservar, mas também para estar de bons termos com ela.
A vida é o preço que pagamos para estar vivos. E já por isso de vez em quando, lá ela nos lança uma carrada de obstáculos e quebra-cabeças para ver quem leva isto a sério e quem se está pouco borrifando. Seja como for, aqueles que por cá andam vão encontrar pedras no caminho aqui e ali, mas o verdadeiro desafio não é evitar as pedras mas sim, perceber o porquê delas ali estarem, assim como aprender a aceitar que: 1) nada do que acontece, para o bem ou para o mal, foi por acaso; 2) que nada do que aconteceu se perde.
E agora vocês questionam "Ok mas, porque raio tive eu de passar por aquilo? Não era muito mais simples eu não ter de experienciar tal caos na minha vida?"
Talvez sim, talvez não. Tudo depende do entendimento que tiveres da questão. Há sempre dois lados numa moeda. Assim como há sempre duas ou mais perspetivas possíveis para uma só situação. Os pessimistas entenderão uma rejeição como o fim do mundo. Os bem-aventurados entenderão como uma oportunidade para aprender e para continuar a procurar debaixo de outras pedras. No fundo, tudo depende de como tens treinado a tua mente para ver as coisas, como tens treinado o teu corpo para te moveres com as coisas e como tens treinado a tua alma para percecionares, refletires e sentires as coisas.
O que nos leva ao cerne da nossa questão: nada do que se passa na nossa realidade física é em vão, e nada, absolutamente nada, se perde. Tudo se transforma ou se renova, e todos fazemos parte de um ciclo que compreende tudo o que existe na natureza. Tomemos para este meu pensar o exemplo de um floco de neve, algo tão simples mas ao mesmo tempo, único. Um floco de neve sozinho não é nada. Dentro de alguns minutos ou horas acabará por se derreter, transformando-se em água. Porém, se o juntarmos a outros flocos, acaba por criar aquilo que para nós é neve, aquele manto branco, mais ou menos profundo. A água por ela provocada acabará por ser escoada para outro lugar, como lagos, rios ou oceanos, ou então acabará por se evaporar, dando lugar a futuras nuvens. Ninguém sabe, previamente, o destino desse mesmo floco até que ele aconteça. O floco de neve somos nós, e as suas transformações é a metáfora da nossa vida.
Desta história metafórica conseguimos tirar diversas conclusões.
Em primeiro, convém que se entenda que umas das funções primordiais da vida é criar vida. Em segundo, que a tua vida é um conjunto de experiências não-aleatórias das quais poderás obter grande sabedoria e mudar o rumo da mesma. E em terceiro, que todos estamos conectados neste ciclo da vida, quer estejas no Japão, no Brasil ou nos Pirenéus, sejas um médico, um índio ou um eremita.
Sim, tudo isto te pode parecer meio romancista ou tirado de um conto de fadas, mas a verdade é que existe magia no universo, mas não nesse sentido infantil do qual estás habituado, onde consegues puxar um coelho da cartola. A magia que define o universo chama-se energia inteligente, e para que possas compreender a dimensão do misticismo da vida é necessário que estejas pronto a sair da tua superficialidade e que te mandes de cabeça para as profundezas da tua alma, pois é lá que encontrarás muitas das respostas às tuas perguntas que teimam em não chegar, ainda que passes o tempo todo a queimar neurónios sobre.
Um conselho: não percas mais tempo a pensar!
Este tipo de visão não pode ser adquirida através daquilo que os teus olhos captam e que a tua mente descodifica. Tens de ser capaz de ver em profundidade, pelo que é fundamental que compreendas que aquilo que faz de ti ser o que és, considera 3 aspetos essenciais que se dominam como a tríade existencial: um corpo, uma mente e uma alma. Não és só um, nem nenhum de forma isolada. És os três, por muito que te recuses a entender ou aceitar.
Já Antoine de Saint-Exupéry escrevia há largos anos que “o essencial é invisível aos olhos”, e eu acabei de te explicar exatamente, do que este “essencial” se trata.
Quando atingires este estado de clareza, estarás finalmente desperto, estarás finalmente conectado contigo e com tudo o que te rodeia. Passarás a ver a vida numa lente de completude, unidade, integridade, aceitação, bondade, compaixão, cooperação e amor simples.
Eis que chegou a hora em que tu não voltarás a olhar para a tua rua e para a “casa onde moras” da mesma forma, pois tudo se tornou, a bom tempo, claro como água.
Sorte a tua!



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