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Aos olhos de uma criança

  • Foto do escritor: Natacha Cabral
    Natacha Cabral
  • 21 de mai. de 2021
  • 2 min de leitura

Aos olhos de uma criança tudo é encantado.

Os castelos existem, as princesas e os príncipes andam a cavalo. As ruas são coloridas, os animais falam, as plantas sorriem e os sonhos acontecem.

Aos olhos de uma criança não há impossíveis.

As estradas estendem-se pelos céus, as fadas falam com as suas varinhas, os cheiros intensificam-se no ar e os desejos ganham vida própria.

Aos olhos de uma criança o amor é infinito.

No que tocamos, vira ouro. Os padeiros oferecem o pão, a mãe os seus gestos carinhosos, o escritor palavras felizes, o artesão o talento das suas mãos, os pássaros a melodia dos seus bicos e nós, a harmonia dos nossos corações.

Aos olhos de uma criança não existem diferenças. Não há o real e o imaginário. Não há o bom e o mau. Não há o Eles e Nós. Não há o lá e o cá. Há apenas isso. Tudo é suficiente. Tudo é infinito. Tudo é mágico. Tudo é um só. Ela só ouve a música pelo completo pois sabe que seria inútil tentar separar as partes para ficar com as notas isoladamente. É inocente, mas não ignorante. Para ela tudo faz sentido coexistir pois o que se separa, não subsiste.

Mas aos olhos de uma criança os adultos perderam.

Elas não conseguem explicar bem o quê, pois sabem que seu vocabulário é incompreensível aos ouvidos dos crescidos, mas elas sabem e sentem, pese embora muitas das vezes, não o transmitam de forma clara.

Porque não nos sentamos a contemplar uma criança que brinca?

Do que temos medo?

Do que fugimos?

Não queria acusar ninguém, mas levanto a hipótese de nos sentirmos impotentes. Aos olhos de uma criança somos fracos. Fomos vencidos pelas dúvidas, pelas cicatrizes de guerra e pelo diabo. Perdemos o fio à meada. Perdemos o tempo e o sorriso. Perdemos o que restava das nossas almas algures no purgatório, e por entre os trilhos da floresta densa, não fomos mais capazes de a encontrar. Demos à bruxa má o gostinho da derrota e anuímos com a cabeça.

Aos olhos de uma criança isto é impensável. Por muito fértil que a sua imaginação seja, há coisas que nem ela se atreve a imaginar.

Ficar presa no castelo ou fugir do lobo mau é apenas temporário. O amor sempre prevalece. Pode até vir o monstro das cavernas e das profundezas temidas dos oceanos, mas o escudo e a espada não sabem falhar.

Aos olhos de uma criança tudo é amor. Os milagres existem. A vida é insaciável. A simplicidade prevalece.

Os olhos de uma criança foram outrora, os nossos… Onde foi que os deixamos?

 
 
 

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